Lance Armstrong e o doping no ciclismo

Na tão falada e esperada entrevista a Oprah Winfrey, Lance Armstrong finalmente rendeu-se ao inevitável: seria impossível e desnecessário esconder o que todos já sabiam. Ele dopou-se durante, vá lá, toda a sua carreira.

Veja abaixo os principais pontos da entrevista de LA no programa de Oprah Winfrey.

Veja abaixo os principais pontos da entrevista de LA no programa de Oprah Winfrey.

As reações foram inevitáveis, também. Novak Djokovic, o tenista numero um do mundo, não poupou adjetivos. “Ele é uma vergonha para o esporte”. “Seria ridículo de sua parte negar a evidência, já que havia milhares de provas. É uma vergonha para o esporte ter um atleta como ele. Enganou o esporte. Enganou muita gente no mundo inteiro com sua carreira, com sua história”. “Deve ser despojado de todos os seus títulos. Mereceu sofrer. Como muita gente, perdi a confiança no mundo do ciclismo. Eu o seguia antes. Todos estes grandes campeões, Marco Pantani, agora Lance Armstrong… ocorreram tantos escândalos”.

Bom, se Djokovic acreditava nas sucessivas negativas de Lance a respeito do doping, acompanhando o ciclismo… puxa, ele é mesmo muito inocente. O número de casos de pódios cassados no ciclismo (ei, não só os de Lance, não) por doping é surpreendente. O sérvio declarou ainda que “os tenistas estão entre os atletas mais limpos. Não fico chateado de passar por testes antidoping 10, 20 ou 30 vezes por ano. As regras antidoping se tornaram mais rígidas. Enquanto ocorrer o mesmo com os outros jogadores, está bem“. Isto é mesmo um fato, e que legal para o tênis e os tenistas (esporte, aliás, que adoro).

Nunca defenderemos o doping. Mas tênis não é ciclismo, e não é de surpreender que haja mais ciclistas, competidores de atletismo, nadadores ou lutadores de MMA bombados do que tenistas. É simples: no ciclismo, musculatura forte e endurance além do normal faz tanta diferença que, sem o uso de substâncias, simplesmente não se constrói uma carreira consistente, pois os órgãos fiscalizadores não conseguem – e às vezes não querem, acho eu – detectar tudo. A química tem a camisa amarela – vai puxando o pelotão, muito na frente dos laboratórios que tentam descobrir as falcatruas.

A USADA, WADA e UCI não parecem estar em acordo em nenhum momento. Acusações mútuas se sucedem, e a Comissão Independente criada pela UCI para analisar o “caso Armstrong” acusou formalmente a WADA e a USADA de não cooperarem com as investigações.

A Agência Anti-Doping americana (Usada), por sua vez, manifestou-se imediatamente após a entrevista. A entidade, que deu início a toda investigação, quer que o ex-ciclista faça depoimento sob juramento.

A USADA declarou:

“Esta noite, Lance Armstrong, finalmente, reconheceu que sua carreira no ciclismo foi construída por uma combinação poderosa de doping e mentira. Sua confissão de que se dopou durante a carreira é um pequeno passo na direção certa. Mas se ele é honesto na vontade de corrigir seus erros do passado, vai depor sob juramento sobre as atividades de doping.”

Principais pontos da entrevista:

  • Lance explicou que nunca teve medo de ser apanhado, pois “tudo era uma questão de programação”, já que os testes anti-doping eram sempre nas competições, e nelas ele estava limpo (o que não quer dizer limpo de verdade, ressalte-se).
  • Quando questionado porque havia negado tantas vezes o doping, declarou: “essa é a melhor pergunta. Não sei se tenho resposta. É tarde demais para mim e para a maioria das pessoas. Eu construí uma grande mentira”. Segundo ele, estaria arrependido de não ter admitido o doping quando da divulgação do relatório da USADA: “Daria qualquer coisa para voltar àquela época. Eu não lutaria, não processaria a USADA. Eu só faria algumas coisas antes de admitir”.
  • De forma controversa para quem se diz arrependido de não ter confessado antes, Lance disse que não deveria ter voltado ao ciclismo em 2009, quando ficou em terceiro lugar na Volta da França. Ele acredita que isso foi o principal motivo de toda história sobre o doping ter vazado: “me arrependo do retorno. Se eu não tivesse voltado, não estaríamos aqui agora. É impossível dizer que eu não seria descoberto (se não tivesse voltado), mas eu teria mais chances de me safar. Mas não rolou”.
  • Lance negou ter pressionado ou obrigado algum ciclista da equipe a se dopar, e apenas assumiu a responsabilidade por ter influenciado os ex-colegas. Disse ainda que essa imposição pode ter acontecido de forma implícita, mas não de maneira direta. “Eu era o responsável pelo time, era o principal ciclista do time, mas eu não demitiria se alguém se negasse a se dopar. Nunca houve ordem direta do tipo ‘vocês precisam fazer isso ou aquilo’. Isso nunca aconteceu”.
  • Segundo ele, é compreensível a raiva e decepção hoje nas pessoas que foram seus fãs. Lance alegou que, na época da competição, não tinha noção do quão era grave o que ele fazia: “não sentia que era errado. É assustador. Não me sentia mal por isso. É o mais assustador”, afirmou ele, que agora diz ter uma percepção melhor sobre isso: “o mais importante é que estou começando a entender isso. Não por causa dos clipes, mas eu vejo raiva nas pessoas. E todos têm o direito de sentir isso”, completou.
  • Numa declaração surpreendente (pelo menos para nós aqui no blog) Lance, apesar de admitir que não tem credibilidade alguma para pedir uma limpeza no ciclismo, disse que aceitaria lutar contra o doping no esporte. “Amo o ciclismo, amo mesmo. Digo isso sabendo que vão me ver como alguém que desrespeitou o esporte. Não tenho direito de falar ‘vamos limpar o ciclismo’. Não posso pedir isso, não tenho credibilidade. Mas se houver uma comissão de verdade e eu for convidado, serei o primeiro a fazer parte disso”, concluiu.

Com informações do terra.com.br

O Blog da Lama ao Caos reafirma o que sempre disse. Nunca achou que Lance Armstrong era um atleta limpo, e sempre fizemos ouvido de mercador para as suas negativas. Tampouco acreditamos que os outros competidores foram enganados – pelo menos os do pelotão. Para nós, o percentual de atletas que correram em igualdade de condições com ele é enorme. E isso faz dele, de qualquer maneira, um vencedor.

Não tem nada a ver, nem ninguém está nem aí para isso. Mas atletas que correm os 100 metros rasos de forma absoluta em tempos impossíveis e nadadores que ganham em todas as provas que competem também não tem cheiro muito bom para nós, não. Cheiram a remédio. Só a WADA não sente.

http://youtu.be/DSiMkj-KZUM

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Publicado em 18/01/2013, em Novidades na mídia, O que eu acho e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Dopado ou não, Armstrong continua sendo fuderoso… quem garante que os ultimos colocados nas competições em que Armstrong participava tb não estavam dopados…só que Armstrong conseguiu se sair melhor entre os que tb estam dopados ou não. O fato é que ele é o cara na bike.

  2. Como atleta não merece mais respeito. Ele pode ser bom no pedal, ter uma genética favorável, etc, mas a partir do momento em que escolheu meios ilícitos perde totalmente a credibilidade. E dizer que outros também utilizavam e que entre os dopados ele seria o melhor, ou que só com doping para aguentar o ritmo não é desculpa. É lógico que por trás da “confissão” há interesses: retornar às competições, retomar os patrocínios (imagine quanto não deve ter perdido desde a perda dos títulos). E tenho minhas dúvidas se irá entregar alguém. Bem colocado esta reportagem da Wired.
    http://www.wired.com/opinion/2013/01/the-talk-show-ritual-of-rehabilitation-wont-work-mr-armstrong

    • Não concordo inteiramente. Para mim ele tem o grave e óbvio defeito da pilantragem endógena, mas eu não o baniria for life. Com um acompanhamento próximo 😉 talvez ele ainda tenha o que mostrar no triathlon.
      Acho que foi bom para o ciclismo – e para ele, porque não? – que tudo sobre ele tenha vindo à tona. Para o esporte como um todo, entretanto, acho que a WADA – e Usada, onde lhe for pertinente (com atletas americanos) – deveriam olhar de perto e investigar superatletas com resultados impossíveis, como Usain Bolt e Michael Phelps. Só assim eu deixaria de ver Armstrong (erradíssimo, sem nenhuma dúvida) como boi de piranha (conhecem a expressão?).

  3. Ótima colocação DLAC, disse tudo!!

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