Sobre medalhas olímpicas

Londres 2012 acabou, né? E uma coisa me chamou atenção… a mídia “especializada”. Que tanto se divertiu falando dos “fracassos” e “decepções” da delegação brasileira.

Devo dizer que não concordo, de saída, com a postura de alguns atletas ao se desculpar por maus (ou não tão bons) resultados. Se desculpar do que mesmo? De acordar todos os dias para treinar duramente seis, oito horas seguidas? Por não poder comer naquele restaurante com a família, pois a carne pode conter anabolizantes? Por não ver os filhos, mães, pais e irmãos direito meses a fio, pois os treinamentos não permitem? Por, em muitos casos, ter de mendigar patrocínios para seguir em frente com seu sonho?

Ao meu ver, o teor das reportagens é degradante. Como se o atleta já não estivesse frustrado o suficiente, puto consigo mesmo. Vejam só (se tiverem estômago):

Maurren Maggi – Diego Hypolito – Cesar Cielo – Bernardinho – Alison – Lucas

Em depoimento ao Globo.com, Fabiana Murer, outra favorita a medalha que “decepcionou a midia”, resumiu tudo muito bem:

Estou tranquila, isso é o esporte, acontece. Fiz o meu máximo que dava no momento. Na segurança também. Não adiantava me jogar no último salto e me machucar. Agora é voltar para a Vila (Olímpica) e analisar o que vou fazer”.

Outra declaração que gostei foi do Bruno Prada, proeiro do Robert Scheidt, ao Terra:

“Com o bronze conquistado em Londres no peito, o velejador lamenta erros na regata decisiva. Eles tinham a prata na mão, mas arriscaram para buscar o ouro. A estratégia escolhida não teve sucesso, e a dupla perdeu um posto na classificação.
– Todos criaram expectativas. Assumimos nossos erros. Não foi o vento. Foi uma interpretação errada da previsão do tempo na última regata. Pagamos o preço. Mas medalha é medalha, tem de cuidar como um filho, porque é muito difícil de conquistar”.

O Brasil, minha gente, não é potência. Só é potência em discursos inflamados nos púlpitos da ONU, para bajular ou engrandecer esse ou aquele governante, com vistas a acordos comerciais mais vantajosos.

Não é potência, porque não tem infraestrutura, não tem saúde pública que preste, nem escolas, nem segurança. Não tem o mínimo.

E, se não tem o mínimo, não pode ter, também, uma delegação olímpica que volte cheia de medalhas DE OURO (é, de prata ou de bronze não serve). Um ciclo olímpico de quatro anos não forma nenhum atleta. A preparação tem que ser de alto nível, e por muito tempo. Todos os equipamentos, melhores treinadores, alimentação e tecnologia devem estar à disposição dos atletas – além, é lógico, de uma remuneração adequada que os permita seguir com os treinamentos focados no desempenho ao invés de estarem focados no pagamento do Visa no fim do mês.

Formar um atleta de ouro (de bronze ou de prata também, by the way) é caríssimo, e talvez não seja uma prioridade, mesmo, no nosso país. Então, vamos deixar de falsas esperanças e cobranças, agradecer aos céus por TODAS as medalhas que ganhamos e a TODOS os atletas que conseguiram um índice olímpico – o que por si só, hein, Elia Júnior, já é dificílimo – e foram lá e não se deram tão bem.

Além disso, uma competição – só sabe quem já passou por isso, quem só vê na TV não pode opinar muito, não – é algo muito peculiar. Às vezes o atleta está muito bem preparado e tem muito apoio, mas o resultado não vem. Ele pode simplesmente ter errado, não estar bem no dia ou ter outro melhor que ele. Simples assim. Já é frustração suficiente não ter o resultado esperado numa prova, ninguém precisa valorizar a desgraça de quem lutou tanto, como fez a mídia com muitos atletas brasileiros.

Parabéns a todos os quartos, quintos e trigésimos lugares. Façam simplesmente o melhor, e está bem. Parabéns a Rubens Donizete, com um honroso 24º lugar no Mountain Bike, à frente da Grã-Bretanha (Liam Killeen) e de representantes da Suíça (Florian Vogel) e Alemanha (Robert Forstermann).

Ah, vocês sabem quantos atletas participaram dos jogos? Cerca de 10.500. De 204 países. Foram distribuídas 962 medalhas (de ouro, prata ou bronze), o que significa que mais de 9500 atletas saíram sem medalha alguma (ainda mais se você considerar que alguns atletas ganharam mais de uma medalha).

85 nações ganharam pelo menos uma medalha. 119 não ganharam nada. Dos 204 países participantes, 187 ganharam menos medalhas do que o Brasil.

O Brasil, 84ª posição no ranking do IDH , ficou em 22ª colocação nas Olimpíadas de Londres, segundo o duvidoso critério, na minha opinião, de só contar medalhas de ouro. À frente de Dinamarca (16º em IDH), Canadá (6º em IDH), Suíça (11º em IDH), Suécia (10º em IDH), Noruega (Medalha de ouro em IDH). Sei não, mas preferia ter o IDH da Noruega e ser 35º nas olimpíadas, mesmo.

Estamos nos queixando do que?

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Publicado em 13/08/2012, em O que eu acho e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 10 Comentários.

  1. Tayze Apolinário

    PERFEITO. Parabéns pela matéria e parabéns pelas palavras muito bem colocadas. Idependentemente de resultados, devemos parabenizar a representatividade de cada um nas Olímpiadas. Devemos nos orgulhar dos brasileiros pelo esforço e dedicação.

  2. Mais um excelente post Da Lama ao Caos!
    Concordo em gênero numero e grau!
    Ah, não tenho estômago para ler o que escrevem do pessoal!

    Parabéns!

  3. É sempre bom olhar por outro ângulo os fatos, por outro ponto de vista, para não cometermos erros e injustiças ao engolirmos as opiniões dos outros. E você apresentou suas ideias e argumentos como uma excelente cabeça pensante! Muito bom! Curti a matéria!

  4. Mauricio Andreoli

    Prezados,

    A sensação do fracasso é natural. Somos torcedores natos e facilmente iludidos com a propaganda pré-evento, sejam olímpiadas, pan ou copa do mundo.
    Concordo com as colocações feitas no post, pois elas nos levam a concluir que precisamos mudar mentalidade e atitude em nosso país e sabermos valorizar as conquistas, independente da análise dos ditos experts.
    Se me permite, considero o artigo do link http://olimpiadas.uol.com.br/analise/roberto-shinyashiki/2012/08/13/atletismo-e-natacao-tem-problemas-graves-e-precisamos-mudar-para-subirmos-no-quadro.htm uma ótima análise dos acontecimentos.
    Abraço a todos!

    • Maurício, concordo só em parte com o Roberto. As confederações precisam se profissionalizar, mesmo.
      Mas não é só o alto nível que precisa mudar: a estrutura de competições de base não recebe quase nenhum apoio delas. Posso falar sobre a Confederação Brasileira de Vela e Motor (e falo dela, pois a vela é um dos esportes que mais nos trouxeram medalhas), que se dá apoio ele não chega às Federações regionais, menos ainda aos clubes ou atletas. A “geração de ouro” da vela brasileira – Torben e Robert aí incluídos – devem muito a uma estrutura de clubes que neles apostaram e, pasmem, a um circuito de vela patrocinado por uma marca de cigarros nos anos 80, que se não deu apoio especificamente a eles, movimentou o cenário nacional.
      Cenário, aliás, que depende de mudanças estruturais, inclusive na legislação fiscal, pois é fato que os melhores equipamentos, essenciais para atletas de elite, são importados. Um veleiro Laser, que salvo engano nos deu três medalhas olímpicas (dois ouros e uma prata), e é um barco simplíssimo e que não é fabricado no Brasil é absolutamente inviável para velejadores não-patrocinados. Expandindo o raciocínio, quantos atletas olímpicos em potencial tem o Brasil que jamais praticarão esporte algum, por falta de condições financeiras?
      O problema – de termos resultados melhores como um todo – me parece conjuntural e eu acho que não é coisa que se resolva a curto prazo. E como curto prazo eu estou falando de uns 20 anos.

  5. Nossa “mídia especializada” de nada serve, é mais um ato cômico do circo(seguido do pão) destinado a uma população leiga e alienada. A maioria dos “especialistas” que criticam nossos atletas, são os atletas do passado que também não tiveram resultados expressivos e acham que com os recursos que os atletas atuais desfrutam teriam melhores resultados, porém esquecem que os recursos dos demais países também melhoraram, e em proporções superiores ás nossas. E não me refiro á recursos financeiros, que no Brasil se não fosse pela incompetência e má índole administrativas seriam mais do que suficientes, me refiro a recursos culturais. Como um país que tem por aula de Ed. Física um bando de jovens jogando pelada vai competir contra uma Jamaica onde provas escolares de corrida lotam estádios? Como que um país do nosso porte, que tem que mandar corredores de BMX para a Argentina para treinarem em uma pista oficial, enquanto outros países constroem réplicas da pista olímpica para seus atletas treinarem em casa pode ser competitivo? Como desenvolveremos uma cultura poliesportiva se, quando está ocorrendo uma belíssima final olímpica de MTB feminino, o único canal de tv aberta autorizado a transmitir os jogos está passando ao vivo os jogadores da seleçãozinha de futebol dentro do ônibus que vai para o estádio e questionando que música os mesmos estão ouvindo como se isto fosse algo relevante diante de uma olimpíada ? Sinceramente, acredito que não temos, a nível de grande alcance uma mídia especializada, temos especialistas em futebol e um resto de conhecedores de outros esportes que preenchem os espaços vagos, os poucos bons não fazem críticas toscas aos nossos atletas guerreiros e talvez por isso não cheguem as grandes massas. O que é extremamente conveniente aos nossos duvidosos dirigentes esportivos que lucram fortunas através desta alienação e fanatismo besta em torno de um esporte desleal e desprovido de valores, amado e chamado de futebol. Potência olímpica ? Duvido que seremos tão cedo, ou alguém sabe de alguma bomba relógio instalada no centro administrativo do COB e CBF ?

    • Registre-se que não sou fã da TV Globo. Para dizer a verdade, pouco assisto TV, e menos ainda TV aberta.
      Porém, justiça seja feita: ruim por ruim, a Globo quando se propõe a transmitir um evento desse porte faz coisa muitíssimo melhor do que o arremedo de cobertura que a BandSports (TV paga) e ESPN fizeram.
      Via de regra, o que se viu foram transmissões focadas no feijão-com-arroz (futebol + atletismo + vôlei + judô + boxe), comentadas por gente que, francamente.
      Um lixo. Curiosamente vi algumas transmissões da TV Pública Argentina (aberta?), bem ruinzinhas, mas que, estivessem elas disputando com as da Band, eram medalha de ouro.

  6. A detentora de direitos exclusivos de transmissão este ano foi a Record, às demais emissoras ficaram estabelecidos tempos e limites ridículos de transmissão imagens. Coisa de segundos mesmo, e com um atraso de minutos em relação a “titular” record regulamentado por contrato (se não em engano, 20 minutos). Sedo assim a única que poderia transmitir ao vivo em aberto era a record, porém tinhamos ainda via cabo a ESPN e 4 Sportv’s, porém, no caso do ciclismo por exemplo, que poderia ser transmitido pela ESPN que até tem alguma programação voltada a isto, foi transmitido a mesma programação que um dos Sportv’s estava passando. Restou para os amantes, assistir a um pedacinho do BMX, com comentários excelentes(sarcasmo) na Record, e o resto pela internet, sem narração nem nada…Estimulante.

  7. Perfeito os comentarios, Diego Dias!

  8. Eu moro na Alemanha, e acabei vendo muito mais ciclismo e outros esportes, nao tao populares no Brasil, mais frequentemente que os próprios brasileiros. Realmente é uma piada como o Brasil forma sua base para qualquer esporte, exceto futebol. Nao há incentivo nenhum, nada de estrutura. Como podemos pensar em grandes nadadores, por exemplo, se há tao poucas piscinas para treino? Ciclismo? Nao temos nem velódromo, nem estrutura para treino…. E pense que todas as pecas tem que serem importadas e chegando aí tem-se um imposto absurdo. Onde fica o incentivo a formacao?
    E se formos falarmos em investimentos aí sim que a coisa piora, nao há uma política séria de investimentos em esporte. Nem mesmo o valor do PIB que deveria ser destinado ao esporte chega a seu destino final. Entao esses comentaristas deveriam enfiar a viola no saco e respeitar atletas que se esforcam além de todos os limites.

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