Jussier Lourenço e o Ironman Brasil 2012

O que é o Ironman Brasil? Bem, é a maior prova de triathlon da América Latina. Sonho de consumo de qualquer triatleta. São 3,8 km de natação, 180,2 km de ciclismo e 42,2 km de corrida, que devem ser cumpridos em, no máximo, 17 horas. A última edição, em 2012, foi realizada no dia 27 de maio, na paradisíaca Floripa, e é a única classificatória na América Latina para o Mundial Ironman, no Havaí.

Voltando no tempo, em 2010, o atleta Jussier Lourenço estava se preparando para correr a mais importante corrida de aventura do Estado: a Expedição Carcará-10 anos. Naquele ano, a edição dessa prova teria um percurso de 500km, já merecendo uma atenção e uma preparação mais detalhada. Apesar de praticar corrida de aventura desde 2004, Jussier nunca teve seus treinos supervisionados por um profissional – algo, por sinal, que ele não aconselha ninguém a fazer. A equipe de Jussier concluiu com sucesso a carcará em 5 dias, remando, nadando, correndo e pedalando. Segundo ele, uma corrida de longa duração é uma experiência única, que que todo atleta de corrida de aventura deve fazer pelo menos uma vez. O resultado é o autoconhecimento, seus pontos fortes, fraquezas e limites.

Jussier na corrida

Com a preparação e a conclusão da Carcará, Jussier sentiu necessidade de novos desafios. Foi então apresentado ao cross-thriathlon, modalidade off-road do esporte, com distâncias menores de tudo o que ele já praticava ou treinava – natação, mountain bike e corrida. Tudo será mais simples, ele pensou, mas logo esse pensamento se revelou equivocado.

Nos primeiros minutos da competição Jussa logo viu o quanto o X-triathlon era diferente de um triatlon urbano. A última etapa do Circuito Karranka em dezembro de 2010, com 750m natação, 20km bicicleta e 5km corrida – aparentemente nada demais para quem tinha feito a Carcará – foi completada com muita dificuldade. O atleta, para quem a maior diversão é superar desafios, naquele dia disse para si mesmo: vou fazer um Ironman. E, a partir de agora, ele conta, com exclusividade para o Da Lama ao Caos como tudo aconteceu:

180 km e ainda uma maratona pra correr…

“Conversei com amigos sobre esse pensamento, e como era de esperar, alguns acharam loucura, outros apoiaram e muitos outros apoiaram com desconfiança. 3,8 km de natação em mar aberto, 180 km de bike e, para terminar, correr a maratona parece loucura, mesmo. A idéia, no entanto, já estava sedimentada na minha cabeça, e nada me faria mudar.

Para isso se tornar verdade, eu teria que me cercar de pessoas que pensam como campeões e de um treinador que já tivesse feito um Ironman. Com a dissolução da minha equipe que correu a Carcará 500km, Chikão, Personal Trainer e ex-presidente da Federação de Triathlon do RN havia encerrado seu brilhante trabalho e dentre os outros profissionais disponíveis uma das melhores opções que tínhamos era Cid Barbosa, triatleta profissional, que já tinha 3 Ironmans em seu currículo e havia treinado com os melhores triatletas do país. Assim, ele foi a escolha natural, e aceitou se juntar a mim nesse desafio.

No dia 6 de junho de 2011 fiz minha inscrição no Ironman Brasil, após ficar a noite toda acordado esperando abrir o portal, pois as vagas são limitadas – parecia o show do U2. Que coisa difícil! Foi então que percebi: a prova havia começado, não tinha mais retorno e nada seria fácil dali pra frente.

Como parte da minha preparação, comecei a pesquisar sobre o esporte, assistir competições, acompanhar tempo dos atletas, ler bastante e principalmente ouvir muito atletas e suas experiências. Comecei a participar do circuito Karranka de Cross-triathlon, que apesar de não ser a modalidade tradicional, era o que nós tínhamos aqui no estado. Fui ao brasileiro de Cross-triathlon em Fortaleza e a minha prova de fogo foi a prova Cabra Da Peste,com distâncias de meio Ironman, competição muito dura que os cearenses promovem em outubro. O ano de 2011 foi muito bom pra mim como atleta e pessoa, cresci em ambos os aspectos e acredito que o esporte tem uma influência grande nisso tudo.

Então chegaram as famosas 16 semanas que antecedem a prova, e onde os treinamentos chegam ao seu auge. Neste período, descobri muitas coisas sobre mim e sobre o esporte: sobre o esporte, que ele é ciência pura, e sobre mim, que meu corpo não estava preparado para o volume de treinamento a que me submeti. Para competir em um Ironman, o consenso é que são necessários anos dentro do esporte, seguindo uma evolução , e que só depois de 5 anos competindo em distancias progressivamente maiores é que o atleta pode ser considerar preparado para o tão sonhado Ironman. Mas isso fica pra quem tem tempo e idade para fazer assim – eu já tinha 40 anos, então era pagar o preço e seguir em frente. Por iluminação divina, apareceram pessoas em meu caminho que tornaram a caminhada menos árdua. Conheci as fisioterapeutas Lycia Dias e Poliana Almeida, da Trauma Center, que foram verdadeiros anjos da guarda, pois minha semana era assim: Cid “destruía” meu corpo e elas o reconstruíam. A outra foi meu amigo-irmão Arnon Garcia, da Ava Construções, que resolveu me apoiar com os tão necessários suplementos alimentares. Para quem não sabe, suplementos de qualidade são caríssimos e essenciais numa rotina de treinamento intenso, já que estar recuperado para o próximo dia é tão importante quanto treinar corretamente, e um atleta da minha faixa etária não o consegue sem o uso dos suplementos corretos.

Durante os últimos quatro meses que antecederam a prova, acordar às 4 horas tornou-se rotina. Eu e Karim Salha nadamos, pedalamos e corremos muito durante esse período. Aliás, um rápido parêntese: se alguém te dissesse que iria fazer um Ironman, mas que é gerente financeiro de uma grande construtora, cursa um MBA na FGV, é pai de um garoto de 4 anos e que sua esposa está grávida e que teria o bebê na semana anterior a competição, você sinceramente acreditaria que esse alguém conseguiria? Karim batalhou, treinou e conseguiu. Tempo é uma simples questão de prioridades, certo? Parceiro, você é o cara!

Nas duas últimas semanas eu estava exultante em ter vencido o período de treinamento, pois sempre me disseram que aquela era a parte mais difícil de um Ironman. Renúncias, dores, sono, cansaço, são coisas que já fazem parte da minha vida, então não foi nada muito complicado, mas o absurdo volume de treino, esse meu corpo sentiu muito. A melhor parte disso tudo é que daqui pra frente, até chegar o próximo Ironman, os treinos que farei serão brincadeira de criança. “O que não te mata, te fortalece”

Faltando dez dias para a competição, contraí uma virose. Isso me deixou desesperado – a última vez que eu havia adoecido, tinha ficado um mês de cama. Naquele momento vi tudo indo pelo ralo, um ano de foco indo embora… Mas precisamos, sempre, nos cercar de pessoas positivas, pessoas que sempre nos apoiem e nos levem para a frente… pessoas com a cabeça de campeões! Como disse Lance Armstrong, “”a dor é temporária, desistir dura para sempre”. (Nanda, obrigado por ter ficado ao meu lado em todos os momentos. Todos!).

Então, bem, chegou o dia. A festa já havia começado no aeroporto, inúmeras bicicletas e seus donos chegando a Florianópolis para a festa do triathlon nacional. Creio que todo triatleta sonha em viver aquilo: quando você chega na Expo – a feira de equipamentos – estão lá as melhores lojas do Brasil e, pra onde você olha, os atletas que você só vê nas revistas, os tops do esporte, conversando com todo mundo e mostrando que são de carne e osso (apesar de que, pelos tempos deles no Ironman, eu duvido um pouco disso…).

Dia 27 de maio acordamos às 3 da manhã, tomamos café às 4, a às 5 estávamos na área de pintura. Às 5:30 passamos pela última vistoria na bike, às 6 estávamos vestindo a roupa de borracha, às 6:30 alinhando para a largada… ansiedade, expectativa, orar, agradecer, sol nascendo, largou! 2000 atletas se atirando na água… havia começado!

1h20’ Depois, pés na areia, vencida a primeira parte – que pra mim seria a mais difícil, pois a natação á o meu fundamento mais fraco. Bom, resolvo isso no próximo Iron!

1h30’ Estava na bike, conforme planejado. Empolgação, sem vento, asfalto bom, clima frio, bikes voando ao seu lado… mas não tinha como não ignorar meu frequencímetro… quebrei no quilometro 130. A partir dali entrou em ação o Plano B: administrar as câimbras, pois ainda faltavam 50 km de bike e uma maratona para correr… São 92km – nada de brincadeira.

7h20’ Entreguei a bike, completamente desidratado, mas esse era um problema que eu conhecia muito bem – Meus anos de corredor de aventura me ensinaram a lidar com ela. Tomei um soro, fim da segunda transição – vamos para a frente.

7h30’ Agora… bem, só faltava uma maratona! Eu bem sabia que agora a prova tinha começado… Tudo de errado que eu havia feito lá atrás a corrida iria me cobrar com juros.  De novo, nesse momento, eu vi o quanto a corrida de aventura me fez bem, pois todas as dores que senti foram ignoradas. O processo era conhecido para mim. Infelizmente, é impossível  correr com câimbras. Por mais que eu tentasse me hidratar, não estava funcionando. Só havia levado um envelope de soro e as cápsulas de eletrólitos não estavam dando conta. Como parar eu não ia mesmo, a melhor opção foi correr e caminhar devagar e sempre.

Cruzar com anônimos e amigos te incentivando faz toda a diferença.  Não sei ao certo essa estatística, mas acredito que seja baixo índice de desistentes durante a prova e talvez seja esse um dos motivos.

A chegada é a recompensa tão esperada: 3,8 + 180 + 42 = o título de Ironman!

E foi assim até o fim. Os últimos 2 km, preciso dizer,  são intermináveis. Mas, talvez, os mais gratificantes. Passa um rápido filme de tudo, e, ao aproximar-se da linha de chegada você tem a certeza que tudo valeu a pena. Talvez, por isso, a prova se chame Ironman… é uma prova que seleciona seu participante por sua imponência, e não apenas pelas distâncias… vencer o medo de se inscrever, treinar ir lá e concluí-la, faz do atleta uma pessoa mais forte mentalmente, pois fisicamente falando, pessoas mais fortes do que muitos que estavam lá – inclusive muito mais fortes do que eu – talvez não conseguissem terminá-la”.

A razão de tudo…

Jussier terminou a prova em 12 horas e 17 minutos. Seu parceiro, Karim Salha, em 11 horas e 52 minutos. Ambos são atletas vitoriosos, de uma prova que para sempre estará em suas memórias. Terminar um Ironman, por si só, já é uma façanha, e para esses dois parceiros, com certeza, foi algo inesquecível. Parabéns, rapazes, e que venha o Ironman 2013!

Agradecimentos especiais:

Jussier agradece a todos os que o apoiaram na preparação dessa prova, e especialmente a:

Ava Construções (Arnon Garcia); Trauma Center (Lycia Dias e Poliana Almeida); Academia Hi-Fit (Stênio Bezerra);  Rapanui Bike Shop (David Taveira e Carol Shneider) e Cid Barbosa Triathlon.

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Publicado em 22/06/2012, em Atletas, Ultramaratonas e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Amigo Jussier, sei que foi muito gratificante para você ter concluido o iron man, eu não me atrevo a enfrentar tal desafio este esporte é para poucos, isto é, para a elite do esporte na qual você faz parte.

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