Lost

Não, eu não me perdi. Ou já, mas sempre dei um jeito de encontrar a saída. Mas esse post fala em perder-se no sentido de estar isolado, sem ajuda.

Quem faz trilha sabe, isso pode acontecer. E ter um método seguro para pedir ajuda pode ser a diferença entre um momento desconfortável e um problema grande.

Suponha, por exemplo, que você está em uma trilha isolada. No sertão. Sem comida e com alguma água. E, num downhill mais esperto entra um galho na roda traseira e voam raios, câmbios e rotores para todos os lados. Como você vai pedir ajuda, se são 5 horas da tarde e você está – ao que você imagina – a 40 km da cidade mais próxima?

Não, eu não estou pintando um cenário de um filme de terror. Claro, se você já assistiu “À prova de tudo” não terá problemas em se virar. Mas, se não é o caso, ter uma forma de se comunicar com o “mundo exterior” pode facilitar muito seu resgate.

O celular nem sempre tem sinal. Em muitas trilhas, quase nunca. A solução, então, é um rádio. Mas qual seria o rádio mais adequado?

Existem muitas opções populares e relativamente baratas de rádios comunicadores portáteis, desde os conhecidos Talkabout (TA) até os rádios VHF HT (hand talk).

Talkabout Motorola MC 220 MR

Os Talkabouts, que transmitem em frequência UHF, em geral tem baixa potência (0,5W), o que lhe garante um alcance bem limitado. O VHF HT possui potência em torno de 5W e um alcance maior, além de ser bastante popular em veículos 4×4, que eventualmente podem estar nas redondezas e auxiliarem em qualquer contratempo, ou mesmo fazendo uma ponte para alguma cidade mais distante (já que os rádios para automóveis tem potência muito maior que os portáteis).

HT VHF

Falar em alcance para rádios portáteis é complicado, pois tanto os TA como os HT tem a sua transmissão comprometida por relevos acidentados. Mas, numa necessidade, sempre existe a possibilidade de subir uma colina e tentar uma comunicação mais eficiente. Grosseiramente, o alcance é de cerca de 1km para cada Watt de potência, em terreno plano. Alguns rádios TA prometem alcance de 40, 50 km, mas isso é em condições extremamente favoráveis, e nunca deve ser usado como regra. Resumindo, essa não é uma informação confiável – tá mais para papo de vendedor.

Outra coisa a considerar é que, em geral, TAs transmitem em Canais, que são frequências fixas. A maioria dos HTs modernos, no entanto, possuem a possibilidade de escanear frequências de 5 em 5 KHz, o que abre um horizonte maior de possibilidades de encontrar algum outro operador para solicitar um resgate.

A meu ver, os TA são mais adequados para comunicação interna entre grupos de ciclista ou comboios de 4×4. Basta, na saída, escolher um canal, e a comunicação pode ser feita tanto entre os que estão na dianteira como com os que ficaram mais para trás, o que pode ajudar muito caso ocorra alguma quebra ou queda mais forte.

Os VHF são uma solução, digamos, mais profissional, para grupos pequenos que se aventurem em locais mais complicados, pois permitem um pedido de socorro a distâncias maiores, e com a possibilidade de ser ouvido por um considerável universo de jipeiros e estações de radioamadores. Um que transmita na faixa de 136 a 178MHz resolve muito bem. Como os TAs, se o grupo contar com vários rádios HTs, na saída da trilha todos combinam a frequência de operação e poderão comunicar-se livremente entre si. Caso necessário, os operadores poderão buscar uma outra frequência para se comunicar com alguém de fora do grupo (um carro nas redondezas ou uma outra estação de rádio qualquer).

Vale lembrar, contudo, que os rádios VHF que operam na faixa de 2 metros são de uso restrito a radioamadores. Embora a fiscalização seja um tanto deficiente, o correto é que o usuário faça uma prova na ANATEL de forma a obter o COER (Certificado de Operador de Estação de Rádio), e o equipamento precisa ser registrado e homologado pela ANATEL (essa homologação é de fábrica, e o modelo é ou não homologado. Para rádios adquiridos em lojas em geral não há esse problema, pois todos são homologados, mas para rádios adquiridos no exterior ou no Mercado Livre é importante verificar se o modelo é homologado). Se você pretende fazer a prova, saiba que não é nenhum bicho de sete cabeças – o Google está cheio de apostilas, e a Labre (Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissão) do seu estado poderá lhe prestar um bom auxílio. O maior inconveniente é a quantidade de boletos anuais que você receberá a partir da emissão do seu certificado e homologação do seu rádio, mas todo serviço brasileiro cobra essas taxinhas mesmo, e o correto é estar legalizado.

Mesmo com os complicadores, na minha opinião, o VHF HT é a melhor opção, em se falando de segurança. Além disso, para o nosso caso (rádio a ser usado em caso de emergência, em trilhas), é suficiente a obtenção do certificado de radioamador classe D, que permite apenas o uso de frequências acima de 50 MHz, inclusive a faixa dos 2 metros (144 à 148 MHz), e a prova é só sobre Técnica e Ética Operacional e Legislação de Telecomunicações, podendo ser feita por uma criança acima de 10 anos. Também é permitido o uso de estações repetidoras que aumentam em muito o alcance dos rádios móveis e portáteis das faixas de VHF e UHF.

E o preço da brincadeira? Bom, tirando os certificados e autorizações inerentes aos VHF – ou seja, considerando apenas os preços dos rádios – um par de TA custa em torno de 140 reais, e um HT VHF, em torno de 200. E é só.

Lembre-se: a maioria dos HTs não é resistente à água, então, um saquinho estanque é uma boa, para  tempos úmidos e travessias de rios. Se só você tem rádio no seu grupo, deixe-o dentro do saco, na mochila, e só use em caso de necessidade.

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Publicado em 13/02/2012, em Reviews e marcado como , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Comentários desativados em Lost.

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