Bikes de Bambu

Conheci o trabalho do Gerson Aisawa através de um post no Pedal.com.br. É um trabalho que poucos fazem no mundo, e o resultado é tão belo que me interessei instantaneamente. Apesar do foco do blog ser Mountain Bike e não ciclismo de estrada, achei que tinha de abrir um espaço para divulgar essas lindas bikes e o artista que as faz.

Achei tão interessante e didática a forma dele explicar as vantagens e o processo de fabricação que pedi autorização a ele para publicar um post sobre seus quadros. A seguir, com pouquíssima edição, reproduzo os posts dele no Pedal.com.br e, no final, o email que ele me mandou detalhando o processo.

Essa é a minha criação mais recente. Uma estradeira que construí para um amigo meu de pedal. Ele pediu uma bike com geometria racing, porém confortável. O quadro ficou na faixa de 2 kg, com as junções em resina epóxi e fibras naturais e um pouco de fibra de carbono em alguns detalhes.

Road Bike de bambu.

Road Bike de bambu.

A resistência a impactos é melhor do que a do carbono (o carbono é muito fraco nesse quesito). Compressão e torção são ótimos. O bambu não chega a ser tão rígido quanto um carbono ou alumínio, mais isso é uma vantagem, pois a flexibilidade do bambu se casa bem pra construção de quadros. O bambu é um tubo de composite natural com fibras super resistentes.

Claro que um quadro de bambu como qualquer outro quadro não deve ficar exposto ao sol, chuva, etc ele vai estragar da mesma forma. Apodrecer e caruncho (bicho) é uma coisa que não acontece se o bambu tiver um bom tratamento e for colhido na época certa (inverno). O bambu que utilizo é tratado quimicamente e termicamente. Uma vez que o bambu é estabilizado (seria como dizer curado, seco) ele não enverga, a menos que sofra aquecimento (fogo).

Divulgar o preço nem sei se posso pelas regras do forum. Mas só pra se ter uma idéia, desde os desenhos do CAD até o acabamento final demorou praticamente 100 horas de trabalho.

Existem formas muito mais ecológicas para fabricação de quadros e componentes de bicicletas atualmente. Como resinas a base de vegetais, o uso de fibras naturais no lugar das sintéticas e por aí vai. O problema é que o marketing hoje em dia é muito forte, eu dou risada quando alguém diz que a bicicleta é boa quando ele/ela levanta e tira ela do chão pra sentir o peso e diz”essa não tem nem 7 kg então é boa” ou “carbono é carbono o resto é biscoito” … e por aí vai. Depois desse monte de quadro de carbono fabricados, qual será o fim deles? Reciclagem de carbono eu ainda desconheço, espero que exista.

Em determinado momento Gerson foi questionado por um colega sobre algumas peças (gancheira, concha do movimento central) que não seriam feitos em bambu:

Ainda não apareceu algum engenheiro ousado pra fazer as gancheiras e movimento central de bambu, logo chamar o quadro de quadro de bambu é meio pretensão. É como chamar um quadro de carbono + alumínio de quadro de carbono.

Novamente a explicação é didática e convincente:

E qual seria razão pra se ter um quadro 100% de bambu ou carbono? Se for ver do ponto de vista ecológico o alumínio usado no quadro (6061 e 7005) dá pra ser facilmente reciclado.

Agora me diz qual é o quadro que é 100% feito de um material só. Até bicicleta cromoly não é 100% de cromoly, se usa prata e outros metais nas soldas, usa-se outras ligas para gancheiras como inox e não se diz quadro de cromoly+inox+prata+níquel+cromo+aço carbono.

A dúvida persiste:

Se existe quadro inteiramente de aço e de fibra de carbono, porque no bambu tem essa necessidade de o movimento central e os pontos onde a roda vai presa serem de metal?

E Gerson, na lata:

Pq simplesmente é pq nesses pontos é mais viável usar ligas de metal ou mesmo até tubos de composites. Num quadro de composite existe a vantagem em usar só um material pq a técnica de fabricação (moldado em forma) agiliza e simplifica a fabricação. Isso não quer dizer que um quadro por usar apenas um material seja melhor que outro que é composto por mais de um tipo de material na fabricação. Quando os quadros eram praticamente todos soldados a oxido-acetileno, pra agilizar, simplificar e baixar o custo de produção optou-se em tirar tudo que era braze-on (peças pequenas soldadas direto no quadro como, cable stops, suporte de cambio dianteiro, suporte de bomba de pneu, etc) por peças com sistema de abraçadeiras (exemplo: caloi 10 anos 70/80). Apenas quadros mais caros ainda utilizavam tudo braze-on. Com o carbono é a mesma coisa, cada dia eles fazem o máximo pra tirar as peças de alumínio dos quadros (bb, head tube, seat tube, dropouts etc) e continuam usando aqueles cable stops rebitados no quadro (olha o alumínio no quadro!!! hahahaha) pois são simples e rápidos de serem instalados. No máximo que podem fazer é fazer essas pequenas peças em carbono e depois colarem, com praticamente nenhum ganho significativo, apenas o marketing pra dizer quadro 100% carbono o material da moda.

Por fim, ele nos brinda com a explicação técnica do seu trabalho, e com as belas imagens de algumas bikes que fabricou:

Acho que a maioria que se interessa pelas bikes de bambu é saber se realmente o bambu é resistente. Para o bambu ter a resistência necessária para construção de bicicletas ele precisa ser tratado e colhido na época em que não há chuvas e o bambu não retêm amido que é no inverno (aqui no Japão seriam nos meses de dezembro até no máximo começo de março). As espécies que eu uso são de origem asiática, algumas próprias do Japão mesmo e algumas que foram trazidas da China há centenas de anos atrás se não me engano. O nome dos bambus aqui seriam o Madake, Kuro-chiku, Tora-take, Moso-chiku, etc. Existem várias formas de tratamento que são usadas aqui na Ásia há milhares de anos. Os bambus do último quadro por exemplo foram “cozidos” em água, tratados quimicamente com ácido (só não sei qual, as leis aqui são rígidas por isso sem preocupação com o destino do ácido depois do uso) e depois os bambus que não estão eretos são endireitados com fogo. E ficam em descanso por alguns meses (os bambus têm uma etiqueta com a data do tratamento, até hoje só adquiri bambus com mais de 8 meses após o tratamento). Esse descanso seria para estabilizar o bambu, pois se ele rachar eles usam o bambu para outros fins, como venda do bambu em ripas. Nada é jogado fora, tudo se aproveita no bambu, até os pedaços menores são transformados em carvão. Por isso pra o bambu estar pronto pra o uso ele demora além dos 3-5 anos na terra, quase um ano na fase de tratamento.

Outro tratamento usado, seria o uso de forno com defumação. Eles aquecem o bambu num forno a carvão numa temperatura em que o bambu não rache(não saberia te informar a temperatura) por um período de 6 horas. Apagam o fogo e deixam mais alguns dias dentro do forno pra depois retirá-los e passar pela fase de polimento em máquina manual, onde se consegue o brilho com os bambus que podem variar de uma cor avermelhada para preto. Um bambu tratado e extremamente caro é o Susudake, esse são os bambus que foram usados em casas antigas(casas em algumas vezes com mais de 200 anos). Esses bambus eram usados para o forramento interno do teto das casas e como só existiam fogões a lenha antigamente o bambu era defumado naturalmente pela fumaça dos fogões misturada pela gordura da comida, isso lentamente por vários anos. Com isso se consegue um material incrivelmente resistente e bonito. Pra se ter uma ideia, existe varas de bambu com o valor de mais de 2000 dólares no preço unitário, essas são normalmente usadas pra fazer canetas, flautas, varas de pescar, etc. Uma infinidade de coisas não existem limites pra o uso do bambu.

As junções dos quadros são feitas com fibras naturai s(sisal, juta, cânhamo) e partes metálicas em duralumínio (6061, 7005) e a resina usada é a epóxi de boatbuilding (usado na construção de embarcações, pois são resistentes ao ataque químico, raios UV e têm ótima resistência).

Não uso nenhum tipo de molde nas junções é tudo modelado por meio de limas e lixas, trabalho totalmente manual.

E no final eu aplico óleo de tung no bambu. Esfrego com um pano macio o óleo no bambu e deixo ele secar por 1 dia, no dia seguinte eu faço o polimento manual com um tecido macio, esse processo eu faço de 4 a 6 vezes. Depois aplico duas demãos de uma cera a base de cera de abelha e uns óleos naturais. Com esse tipo de tratamento final, a manutenção fica muito fácil, mesmo depois de um pedal na chuva é só passar um pano seco que a sujeira é praticamente toda retirada. Depois de uns seis meses (quanto mais chuva ou lama a frequencia aumenta) é só limpar com óleo de laranja e passar a cera de abelha com óleos naturais outra vez para obter o brilho inicial.

A bike do Gerson

Outra bela criação.

Outra foto da bike dele.

A primeira bike de bambu que ele fez

A bike da patroa (dele).

Não conversei com ele sobre preço, prazo de entrega da bike ou como encomendar. Esqueci de perguntar, mas parece que ele está no Japão :-D. Mas, se interessar a algum dos leitores é só mandar um email para o blog e eu encaminho para ele.

Para quem acha que o bambu não é um material resistente (apesar das afirmações do Gerson):

E, para finalizar, o comentário do meu filho:
“Se o urso panda sentir o cheiro… adeus bike”.

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Publicado em 29/03/2011, em O que eu acho. Adicione o link aos favoritos. Comentários desativados em Bikes de Bambu.

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