Conhecendo sua bike – 2×10 ou 3×10?

Todos sabemos que em qualquer indústria o desenvolvimento de novos produtos é fundamental para a sua sobrevivência. Não só pela melhoria do produto em si, mas também como forma de alavancar as vendas, pois um produto novo possui grande apelo de consumo, e não são poucos os que os adquirem sem haver uma real necessidade. A indústria de bicicletas não poderia fugir a essa “regra de ouro” do marketing.

Assim, a cada temporada, vemos novos (e belos) lançamentos que nos seduzem e levam muitos de nós a meter a mão no bolso, como se daquele upgrade dependesse o nosso futuro no pedal.

Foi assim com o surgimento dos garfos com amortecimento, das 18, 21, 24, 27 e agora 30 velocidades, por exemplo.
E não há como negar a melhoria de performance numa trilha numa bike com suspensão ou com uma gama maior de pinhões para facilitar numa subida. Então, o foco desse post não é esse. O up muitas vezes é necessário, e sou defensor de que você deve ter a melhor bike que seu dinheiro possa comprar, desde que isso não implique em divórcio.

O problema é quando não nos dão opção. É quase impossível comprar uma bike top hoje em dia sem um grupo 2×10. Mas será essa a melhor escolha para o mountain biker amador?

No último ano, as duas grandes industrias de sistemas de câmbio para Mountain Bikes, a Shimano e a SRAM, lançaram seus grupos com cassetes de 10 velocidades. Até então, para quem não sabia, os cassetes com maior número de pinhões tinham 9, o que resultava numa relação de até 27 velocidades, quando combinados com uma pedivela de três coroas.

SRAM 10V (11-36)

Shimano 10V (11-36)

Seguindo a tendência dos atletas de elite, para quem poucos gramas fazem a diferença entre um pódio ou um quarto lugar (e a manutenção ou não do patrocínio), a SRAM lançou o grupo XX, com o cassete de 10V e uma pedivela dupla (26-39, 28-42 ou 30-45). Essa relação faz todo sentido em competições, pois dependendo da pista o atleta pode substituir a pedivela por outra com mais ou menos dentes. A pedivela dupla é mais leve, e o uso de apenas duas coroas leva a menos cruzamentos de marchas, pois o número de diferença de dentes entre as catracas é menor (porque há uma catraca a mais); além disso, pela diferença de dentes entre a coroa do meio para a coroa menor, é necessário que, numa relação 3×9, o ciclista faça duas ou três mudanças de recuperação (voltando para catracas menores) a cada vez que passa para a coroa menor (de 22 dentes).

Porém, o outro lado da moeda é que o ciclista amador (aquele que não tem como trocar de pedivela, nem muito menos prever como será a trilha – que muitas vezes é por ele pedalada pela primeira vez) muitas vezes sofrerá com a necessidade (e a falta) da coroinha, em trechos mais violentos do percurso, como subidas íngremes, lamaçais ou areiões. Da mesma forma, em longos trechos de estradões (para quem gosta de andar mais rápido) a 44 vai fazer falta.

Pedivela SRAM XX – 26-39, 28-42, 30-45

Pensando nisso, a Shimano atacou o grupo XX com o seu cassete de 10V, mas combinado com pedivelas triplas. Os grupos de 9V possuem cassetes 11-34 combinados com pedivelas 22-32-44. Os novos grupos 3×10 Shimano possuem cassetes 11-36 combinados com pedivelas 24-32-42. A menor diferença entre as coroas (8 e 10) contra os 10 e 12 dos grupos de 27V tornaram as mudanças mais suaves e precisas, sem se perder as possibilidades da coroa menor. O número de mudanças de recuperação também caiu para apenas uma, em caso de mudança para a coroa menor. A nova corrente também contribui para uma mudança de marchas que se aproxima da perfeição.

Shimano XTR 3×10 – 24-32-42

Curiosamente parece que a SRAM sentiu o baque, providenciando já os novos grupos de 30V, com cassetes 11-36, mas com um gap (diferença de dentes) de 11T entre as coroas (22-33-44) – e que eu acho até mais inteligente que a solução Shimano para pedivelas.

Pedivela SRAM 3×10 – 22-33-44

Assim, a SRAM manteve seu grupo de 20V no grupo top XX, definido pela própria fábrica como “dedicado ao uso profissional ou competitivo”, e colocou as pedivelas duplas como opção às triplas nos grupos XO e X9. A filosofia da Shimano, foi manter apenas o grupo XTR com opção para 20V (embora também tenha o XTR 30V).

SRAM X0 2×10

Shimano XTR 2×10

Então, amigos, ainda que sem fazer uma análise mais aprofundada sobre a relação em si (existem vários programas que calculam, por exemplo, a força necessária ou o progresso em metros para cada combinação de marchas – por exemplo o Sheldon Brown Gear Calculator, e que poderiam por um definitivo fim à questão), eu advogo fortemente que, para os ciclistas não-profissionais – mesmo os que desejam performance – os grupos 3 x 10 são mais recomendáveis pela gama de opções que oferecem. Não que o 2×10 não resolva – você pode ter pernas suficientes, ou sempre pode empurrar numa subida mais violenta, e se a maior parte dos seus pedais são em estradões ou misto de terra e asfalto, com certeza o grupo de duas coroas é o indicado para você. Mas se você é um ciclista que gosta de trilhas inexploradas, single tracks, subidas e descidas técnicas e terrenos desconhecidos… o 3×10 é a sua praia.

E não sou só eu quem diz, é a Shimano: A pedivela XTR de duas coroas “complementa o desempenho na corrida” e é destinada a “pilotos de velocidade”. A de três coroas, segundo a Shimano, “proporciona maior eficiência no dia-a-dia para uma maior diversidade de terrenos”. Significativamente, a de duas coroas está no grupo “Race” e a de três no grupo “Trail“.

Mas, se você não está nadando em grana, também não se preocupe: o grupo de 27V continua tão em alta que a Shimano ainda o oferece em todas as suas linhas!

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Publicado em 28/11/2010, em Conheça sua Bike e marcado como , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Em resumo, seria dizer que, para maiores velocidades em retas e descidas a relação 2X10 é melhor e para subidas, para quem não tem tanta força nas pernas, a relação 3X10 é melhor?

    Existe alguma bike que possua a relação 2X10 (coroinha + coroão) eliminando a coroa média para dar melhor rendimento tanto em retas quanto subidas?

    • É mais ou menos essa a idéia. Mas supõe-se que o ciclista suba o que há de pior com 26 ou 28 dentes na coroa.
      A relação 2×10 não obedece a mesma lógica de 3×10. Assim, o numero de dentes não será, por exemplo, 44-22. É algo mais intermediário como 40-28 ou 38-26 (12 dentes de diferença, e não 22). Nada impede de você colocar coroas 44-22, mas na maioria das vezes a transmissão não será eficiente. 44-32 seria uma relação mais lógica, se você tiver pernas pra isso :-).

  2. Sou ciclista de giro, não tenho tanta explosão, em reta sempre me virei bem só com a coroa de 32 e cassete de 11, ainda uso transmissão de 9v e cassete 11×34 e mudei para 2 coroas, praticamente não usava a coroa de 44 dentes, só estava a levando para passear, senti um pouco a diferença na coroa menor, mas nada que com um pouco de treino não resolva, quando mudar o sistema todo para 10v com certeza ficará mais leve por conta do cassete de 36 dentes.

    No meu caso 2×9 ficou bem melhor!

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